domingo, 20 de março de 2011

Negrinho do Pastoreio


Um homem muito rico, que possuía muitas terras era egoísta e mau, não dava esmola aos pobres nem ajudava ninguém. Tinha um filho perverso e um escravo, pretinho como carvão, era bondoso e todos o chamavam de Negrinho.

O escravo era pagão, não possuía padrinhos nem nome, se dizia afilhado de Nossa Senhora, que é a madrinha dos que não a têm
. Antes de amanhecer o dia, o Negrinho montava em um cavalo baio e saia para pastorear o rebanho do seu senhor. Trabalhava o dia todo e quando voltava a noite para casa, ainda tinha que sofrer as maldades do filho do estancieiro.

Certa vez, um vizinho disse que o seu cavalo era mais veloz que o baio do estancieiro e desafiou este para uma corrida. Apostaram uma grande quantia de dinheiro. O estancieiro mandou que o Negrinho montasse o seu cavalo. Mas, quase no fim da corrida quando já estava na frente, o baio se espantou e o outro cavalo venceu a corrida.

O Estancieiro ficou indignado por ter perdido a aposta e colocou toda a culpa no Negrinho. Chegando em casa, deu no escravo uma surra de chicote até ver o sangue escorrer. E no dia seguinte pela madrugada, ordenou que ele fosse pastorear trinta cavalos durante trinta dias, num lugar muito distante e deserto. Lá chegando com muitas dores no corpo, o escravo começou a chorar enquanto os cavalos pastavam. Veio à noite escura, apareceram as corujas, e o negrinho ficou tremendo de pavor. Mas, de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora, então se acalmou e dormiu.

Durante a noite, os cavalos se assustaram e fugiram pelo campo, espalhando-se. O Negrinho acordou com o barulho, e nada pôde fazer, por que a cerração era muito forte. Com isso, o filho do estancieiro apareceu e maldosamente foi contar para o pai o que havia acontecido que o Negrinho tinha deixado de propósito os cavalos fugirem.


O estancieiro mandou surrar novamente o escravo. E, quando já era noite fechada, ordenou-lhe que fosse procurar os cavalos perdidos. Gemendo e chorando, o Negrinho pensou na sua madrinha, Nossa Senhora, e foi ao oratório da casa, apanhou um coto de vela que estava aceso diante dá imagem e saiu pelo campo.
Por onde o Negrinho passava, a vela ia pingando cera no chão de cada pingo nascia uma nova luz. Em breve, havia tantas luzes que o campo ficou claro como o dia. Os galos começaram a cantar e, então, os cavalos foram aparecendo, um por um... O Negrinho montou no baio e tocou os cavalos até o lugar que o senhor lhe marcara. Gemendo de dores, o Negrinho deitou-se. Neste momento, todas as luzes se apagaram. Morto de cansaço, ele dormiu e sonhou com a Virgem, sua madrinha. Mas, pela madrugada, o filho perverso do estancieiro apareceu, enxotou os cavalos e foi dizer ao pai que o Negrinho tinha feito isso para se vingar.
O estancieiro ficou mais furioso ainda, e mandou surrar o Negrinho novamente. O pequeno escravo não suportando tanta crueldade chamou por Nossa Senhora, soltou um suspiro e pareceu morrer.

Como já era noite e para não gastar enxada fazendo cova, o estancieiro mandou jogar o corpo do menino em um grande formigueiro para que as formigas lhe devorassem a carne e os ossos.

No dia seguinte, o homem voltou ao local para ver o que restava do corpo. Qual não foi seu espanto quando viu, de pé, sobre o formigueiro, vivo e risonho, o Negrinho, tendo ao lado, cheia de luz, Nossa Senhora, sua madrinha! Perto, estava o cavalo baio e o rebanho com os trinta animais. O Negrinho pulou sobre o baio, beijou a mão de Nossa Senhora e tocou o rebanho, a galope.

Correu pela vizinhança a triste notícia da horrível morte do escravo, devorado num formigueiro. E, pouco depois, as pessoas começavam a comentar o novo milagre. Muita gente já vira à noite um rebanho tocado por um negrinho montado num cavalo baio.

E daí por diante, quando alguém perdia alguma coisa, rezava para o Negrinho e ele sai à procura. Mas só entregava o objeto a quem acendesse uma vela cuja luz ele levava ao altar de sua madrinha, Nossa senhora. Até hoje, dizem que quando perdemos alguma coisa devemos pedir ajuda ao Negrinho do Pastoreio e que ele aparece em cima de um cavalo para ajudar.